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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Book review - Viagem à roda do meu nome




Alice Vieira, Viagem à roda do meu nome. 7ªed. Lisboa, Caminho, 1997, 143 p.

Estas palavras resultam de uma releitura deste livro. Confesso que das minhas primeiras leituras de autores portugueses na escola, as que relembro melhor são as histórias de Alice Vieira. Muitas ficaram-me na memória, mas não pelos melhores motivos. Considerava-as tristes e sem esperança. Não me recordo do título mas uma história era a de um menino, a quem o pai pouco ligava e que teve de ir para a escola com os sapatos da irmã. Esse menino acabou por faltar às aulas... Outra era a história de uma rapariga que, vivendo pobre outrora, foi a uma festa muito bem vestida mas quando se olhava ao espelho, não via a sua nova figura mas a pobreza de outros tempos. Morreu com uma síncope... Realidades da vida? Sim, talvez. Mas aos 12 anos recusava-me a aceitar que a vida era assim tão complicada e sem finais felizes.
Quanto a este livro, lido "hoje", ainda duvido que a Rita dos meus 12 anos gostasse, mas a Rita de 32 gostou! O jovem Abílio vai descobrir como o seu nome, que considerava feio, era especial para as memórias da velha prima de nome Constança. As memórias têm a capacidade de embelezar a nossa realidade e, à medida que o tempo passa, aprendemos a compreender e a amar as nossas raízes. Essa viagem até Aveiro vai mudar Abílio para sempre: a visita à prima Constança ajudá-lo-á a perceber a razão da escolha do seu nome. A partir desse momento, Abílio aceita-se como é e deixa de se importar com o que os outros dizem. Na viagem de regresso a Lisboa e após a morte da prima, Abílio conhece no expresso uma senhora viúva que muito singelamente lhe explica a importância da memória que "desafia" a própria morte, tratando-a como uma ausência meramente física. Cada um tem as suas razões para ser feliz e de ser como é, independentemente dos juízos de valor dos outros. Recomendarei esta história aos meus filhos.

Virar a página...

Depressa passou o tempo e este espaço ficou à espera de mais impressões das minhas leituras. Não me admira, a pressa que tenho em ler mais impede-me de pôr as reflexões por escrito. No entanto, não gostaria de passar em branco as leituras que fiz e, por isso, vou escolher alguns livros para abordar aqui. Curiosamente, reparei que no ano passado não segui totalmente a ordem de leitura. Acabei por não reflectir sobre dois livros que eu li e até me pertencem:
A Menina que roubava livros de Markus Zusak e A Sociedade Literária Tarte de Casca de Batata de  Mary Anne Shaffer. Para já não me incomoda não fazer uma apreciação pois são livros que espero reler e descobrir outras perspectivas! Ambos falam do amor pelos livros e do poder mágico da leitura num contexto tão complexo como o da II Guerra Mundial.

                                             1.  
                                                                                                              
Imagem 1 retirada de:     www.palavras-impressas.blogspot.pt 
sábado, 7 de julho de 2012

Leituras paralelas e balanço do primeiro semestre



Eis algumas das leituras paralelas, feitas entre a leituras dos clásicos e de autores locais. Ainda não fiz uma retrospectiva destas leituras pois fui avançando na leitura das tais obras importantes... No primeiro trimestre de leituras, tomei a decisão de orientar as minhas escolhas para dar preferência a clássicos da literatura estrangeira e portuguesa, entre os quais autores de quem eu oiço falar há muito tempo mas a quem nunca dediquei tempo. Igualmente importante nestas escolhas, está a vontade de conhecer a obra dos autores locais. 
Num primeiro balanço do semestre, concluo que devo continuar nesta resolução ainda não tão notória como gostaria! A literatura portuguesa continua a estar presente apenas com os autores locais. Livros de outros escritores nacionais continuam ausentes...

Caso para dizer:"Tantos livros, tão pouco tempo"

* Algo digno de nota: segundo o Goodreads (e as fantásticas estatísticas), já atingi o número total de livros lidos o ano passado, que foram um total de 17. Continuo no caminho até 24, e quem sabe mais além com esta resolução de 2012!!



Book Review - O alto espaldar da cadeira de verga

Imagem retirada de:



Luís Vieira da Mota, O alto espaldar da cadeira de verga. Leiria, Diferença, 2001, 160 p.

Livro requisitado na Biblioteca João Soares

Tem sido uma surpresa a leitura dos livros do escritor (e amigo dos Serões Literários) Luís Vieira da Mota. Várias vicissitudes atrasaram-me na leitura das obras deste escritor. Quando comecei a ler Renascer em Córdova, começou uma etapa inesperada da minha vida que me afastou durante algum tempo da leitura, ironicamente... Nem gosto de recordar esse tempo. E por isso sempre que me lembro, tento esquecer. Mais tarde tive uma oportunidade, que não aproveitei, e desde O último silvo do vapor que me delicio nesta leitura. Este livro não foi excepção. Sem o encanto da personagem do livro O último silvo..., à personagem principal não lhe falta alguma tragédia na vida, felizmente não tão fatal nas consequências! É a história de um casal, com as suas rotinas bem presentes e sonhos adiados. Reflectem-se as transformações do pós 25 de Abril no país. Essa mudança não se reflectiu na vida das personagens da maneira como desejavam. Ilusões que se vão perdendo. Felizes deles, que ainda as tinham. Curiosamente, a senhora ambicionava uma vida dedicada às Artes, mas ao contrário de Strickland, preferiu manter o sonho condicionado por certas marcas negativas da infância e da vida neste país tão pequeno. O sucesso material do marido, tão difícil de alcançar e de manter, proporcionou apenas um conforto vazio. E é na cadeira de verga com um alto espaldar que a senhora recorda momentos da sua vida, em especial um "revolucionário" que renegou o capitalismo consumista e que conhecera numas férias. Este encontro com o poeta vai renascer nela a tristeza de não ter tido a coragem de lutar por um ideal de vida.
Este livro é quase um ensaio sobre o sentido do caminho pessoal e do país. Gostei de ver as personagens a discutir problemas que nos marcam ainda hoje.

Book Review - Middlesex


Imagem retirada de:

Jeffrey Eugenides, Middlesex, Lisboa, Dom Quixote, 2004, 521 p.

Livro requisitado na Biblioteca João Soares



Comecei a ler este livro com curiosidade e depressa vi que é um livro que exige a nossa total dedicação na leitura, sem outras distrações. A história é narrdada por Calliope e inicia-se com a aventura dos seus avós, emigrantes gregos a viver nos EUA, e protagonistas de uma história de amor muito peculiar, passando depois para a história dos pais até terminar com a narrativa da sua própria transformação sexual. Esta leitura mostra que o autor é excepcional mas infelizmente a história não me impressionou tanto como estava à espera. Já quando li em 2006 As virgens suicidas fiquei com a mesma impressão. Em parte por achar que o detalhe aqui é levado ao exagero, com descrições longas que atrasam o desenvolvimento da história e que, a meu ver, não acrescentam nada, só um pouco de tédio. A história arrasta-se tão lentamente que dá azo a lapsos como troca de nomes de personagens, que confundiram-me na leitura, mas como é uma leitura pouco dada a distrações, foram falhas facilmente detectáveis!...
 Gostei das personagens, embora sejamos conduzidos por uma Callie que observa tudo omnisciente e depois entra também no desenvolvimento da sua história.

P. 377
/ 380 /
419 420

Book Review - Um gosto e seis vinténs


Imagem retirada de:


Somerset Maugham, Um gosto e seis vinténs, Livros do Brasil, 246 p.

Livro requisitado na Biblioteca João Soares


Após a leitura de O fio da navalha, foi com um sentimento de deslumbre que li este livro. Pela referência que o autor fez desta história no início de O Fio da Navalha, fiquei curiosa e foi inesquecível o prazer com que fui conhecendo a história de Strickland, o pintor que Maugham cria baseado na vida de Paul Gauguin. É excepcional o desenvolvimento desta história, desde a descrição da vida familiar de S., inserido numa vida normalíssima, nada digna de nota para os conhecidos e a corajosa mudança que realizou dedicando a sua vida unicamente às artes. Essa transformação cai com um estrondo semelhante à queda de um S.Paulo e respectiva conversão. Ah, coincidência! S.Paulo e "Paul" Gauguin. A veemência do pensamento e atitude são bem similares, numa versão heterodoxa. Os danos que causa a terceiros em nome do ideal artístico, sem disso ter consciência, são "absolvidos" pelo génio artístico, tão pouco reconhecido na época. É uma vida extraordinária. Enquanto uns questionam o sentido da vida (Larry, O fio da navalha) outros arriscam com uma fé inabalável numa vida dedicada ao puro acto da criação artística porque, para o bem e para o mal, nasceram para isso. Nota especial para o pobre Stroeve, um pintor sensível e sem arte.

p. 172

Book Review - O fio da navalha

Esta imagem foi retirada de:


Somerset Maugham, O fio da navalha, Lisboa, Círculo de Leitores, 1974, 328 p.

Livro requisitado na Biblioteca João Soares



Este foi o livro que levei para a lua de mel! Coloquei o livro logo de parte, não porque fosse desinteressante, mas porque na Casa das Penhas Douradas existem ao dispor de todos os hóspedes livros dos mais variados temas, tais como arquitectura, livros de viagens, romances e policiais. Tomei então a decisão de ler Agatha Christie. Esta ideia de associar a leitura de A.C. a pausas de verão tem-me impedido de a ler por estar à espera da "melhor" altura para ler, apesar de ter dois livros na minha estante à espera. Comecei a leitura perto da lareira enquanto nevava lá fora (em Abril!). Ironicamente, o livro começa com uma citação do poema "The Lady of Shallot" de Lord Tennyson, que desde 1998 mudou a minha vida com a descoberta da sua versão musicada pela Loreena McKennitt. Sobre este livro de Christie The mirror cracked side to side falarei mais tarde.

Quanto ao livro de Somerset, peguei nele depois e continuei a ler a história de Larry, Isabel e do tio Elliot. Confesso que gostei muito, mas não é até agora o meu preferido. O meu livro preferido é "The moon and six pence / Um gosto e seis vinténs", que o autor menciona logo no início da história (e que por isso me levou a lê-lo de seguida!).

A escrita de Maugham prende-nos, vivi a história e compreendi a inquietação de Larry, que é a personagem mais interessante a meu ver. Sim, claro que o tio Eliott é a essência da história e que Isabel é uma personagem inteligente (?), mas não tenho paciência para uma certa superficialidade de ambos e que o autor narrador também partilha. Compreendo que seja necessária para ultrapassar certas dúvidas e dificuldades que se vão acentuando ao longo do caminho. E é nesse meio termo, fio da navalha, que a vida acontece.