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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Resoluções para 2014


Este ano vou tentar organizar um novo critério para as minhas leituras mensais. Para cada semana, vou seleccionar um livro de:

. 1 autor português;
. 1 autor estrangeiro;
. 1 livro da minha estante;
. 1 livro não ficção;

Claro que alguns destes critérios poderão coincidir e desse modo o livro não ficção pode pertencer à minha estante, por exemplo. Isto permite colmatar a dificuldade de gestão de tempo que nalgumas semanas prevalece apesar da minha boa vontade.

Espero aproveitar melhor o meu tempo para diversificar leituras e finalmente ler aqueles clássicos e autores que me suscitam tanta curiosidade. Eu vou adiando certas leituras com a justificação de encontrar a melhor altura para ler! Definitivamente, esse é um critério que eu já não vou seguir: a altura ideal não existe, vou antes procurar criá-la!

Leituras de 2013

imagem: www.likesbooks.com

Já a entrar no mês de Fevereiro, finalmente consigo disciplinar-me para colocar por escrito as minhas impressões das leituras realizadas em 2013! Em geral, considero que foi um bom ano de leitura, mas poderia ter feito melhor! Cumpri o meu Goodreads challenge, ao ler 51 livros, mas quantidade não é qualidade e considero que ainda tenho leituras importantes a fazer. De facto, este ano gostava de colocar outros critérios para a selecção de livros a ler. O último trimestre do ano foi muito escasso em leituras por me encontrar numa fase muito especial da minha vida...


Por outro lado, tenho sempre dificuldade em atribuir estrelas de avaliação às leituras e, observando a lista de livros lidos, destaco 15 livros que conseguiram ter um maior impacto. Isto é muito subjectivo pois para mim uma boa leitura/bom livro está sujeito a vários critérios: a história, o pensamento do autor e respectivas reflexões nas entrelinhas, as personagens, ... Tudo isto me influencia para considerar determinado livro como uma boa leitura.Ora, quando essa leitura tem a capacidade de se tornar num momento de felicidade na minha vida, esse livro vai automaticamente para um lugar de excelência na minha estante!

E em 2013, os livros que conseguiram aproximar-se deste critério são:

1) O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago;
Ainda hoje penso que quem escreveu este livro foi o próprio Fernando Pessoa e não José Saramago (!). O contexto histórico de Lisboa nos anos 30 e a vida deste heterónimo estão muito bem retratados.

2) A bela do senhor de Albert Cohen;
Não é fácil entrar neste livro e muito menos sair dele! É uma história de amor, tragédia, comédia de costumes, com uma reflexão absolutamente genial sobre a nossa sociedade. 

3) A casa grande de Romarigães de Aquilino Ribeiro;
Um clássico da Literatura Portuguesa, que me surpreendeu pela frescura e bom humor. Foi também interessante rever algumas localidades do Caminho Português de Santiago.

4) Esteiros de Soeiro Pereira Gomes;
É daqueles livros que só apetece gritar ao mundo "LEIAM ESTE LIVRO!", mas não, não gritei. Muito bom e uma excelente sugestão do G.

5) Servidão Humana de Somerset Maugham;
Na continuação das minhas leituras de Somerset Maugham, gostei muito de conhecer o Philip. A edição do livro que li era muito fraca pelo que tenho a esperança de um dia comprar a edição da Relógio d'Água para poder ler novamente mas como se fosse a primeira vez!

6) A fera na selva de Henry James;
Este pequeno grande livro faz-nos reflectir como por vezes o amor pode ser algo... Enfiml, é uma perpectiva absolutamente genial. 

7) O primo Basílio de Eça de Queirós;
Que livro tão actual! Só me apetecia falar deste livro!

No âmbito das minhas leituras juvenis para o P. L., saliento a descoberta de:
8) "O polegar de Deus" de Louis Sachar
9) "Os olhos de Ana Marta" de Alice Vieira
10) "O Sr. Valery" de Gonçalo M. Tavares
e...

11) "Harry Potter e a pedra filosofal" de J. K. Rowling

12) A arte da simplicidade de Dominique Loreau
Finalmente  li o "livro de cabeceira" que mudou a vida de alguém bem próxima de mim!

13) Aprender a viver de José António Marina;
Excelente filósofo e pedagogo, acho que vou recorrer a esta leitura mais vezes.

14) Os livros que devoraram o meu pai de Afonso Cruz;
Este livro terminou um hiato de quase 3 meses sem leitura... Gostei muito.

Menção honrosa:
Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe
Tenho que mencionar este livro, mas reconheço que a altura não foi a ideal pois já estava a atingir o limite de resistência... O raciocínio intrincado das histórias impressionou-me mas não estava em condições de acompanhar!

O ano de 2013 foi também ano da descoberta dos canais literários do Youtube. Comecei por ser seguidora do canal "A mulher que ama livros" e da "Inesbooks", para além de assistir regularmente aos canais brasileiros "Tiny Little Things", "Ao rés do chão", "lidolendo", "letras de batom", e em inglês "Books and Quills da holandesa Sanne e "The Readables" da canadiana Priscilla .  

[Inicialmente, tinha alguma relutância em ver os vlogs brasileiros por considerar que mostravam edições de livros que dificilmente teria acesso, mas tenho constatado o contrário! Entretanto, a lista de canais portugueses cresceu e o entusiamo que transmitem pela leitura tornam estes vídeos em algo viciante para quem adora livros!]

Já comprei alguns livros por sugestão dos canais que referi, sobretudo "A mulher que ama livros" que vai lendo muitos clássicos e não apenas os típicos livros YA que" toda a gente" anda a ler. Também gosto da selecção de ficção contemporânea da "Inesbooks", a quem já tive a sorte de conhecer! Aonde? Numa livraria, naturalmente! Apesar da minha timidez, não resisti a apresentar-me como seguidora do vlog!

E, deste modo, concluo esta - não tão breve- reflexão sobre as minhas leituras em 2013!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Book Review - O Ano da Morte de Ricardo Reis


Imagem retirada de:

A leitura deste livro de José Saramago foi impressionante e inesperada. Quando comecei a ler, fiquei completamente rendida a partir do momento em que Ricardo Reis reencontra Fernando Pessoa. 
Em 1935, Ricardo Reis no seu regresso a Lisboa vai encontrar uma cidade cinzenta e um abatimento não resultante apenas da forte chuva mas de um mal mais sombrio. Nas vésperas da guerra civil de Espanha,  sedimentavam-se as bases do regime autoritário em Portugal que espalhava o medo e a desconfiança. A história de Ricardo Reis vai desenrolar-se neste contexto histórico, frequentemente abordado pelo autor. Hospedado no Hotel Bragança, entre o Chiado e a Rua Augusta, Ricardo Reis vai percorrer estes locais numa descrição que nos dá vontade de visitar esses mesmos caminhos. Na história, esse vaguear de Ricardo  Reis vai também conduzi-lo ao cemitério onde está sepultado Fernando Pessoa. Inesperadamente, os dois poetas ainda se vão encontrar pois Fernando Pessoa ainda dispõe de algum tempo para poder "sair" do túmulo e encontrar-se com Ricardo Reis.
No hotel, o médico poeta inicia um caso com Lídia, ao mesmo tempo que vai conhecendo Marcenda, por quem tem uma curiosidade imediata devido às circunstâncias das suas visitas a Lisboa com o pai. Lídia, simples empregada do hotel, retrata uma classe trabalhadora da época, sem acesso à escolaridade básica e consciente das dificuldades da vida, embora esta personagem mantenha ainda uma capacidade de sonhar. Gostei muito desta personagem - Lídia - pela sua sabedoria feita da experiência de vida e pelas ilusões que vai criando, apesar de conhecer uma vida sem grande margem para tal. Lídia tem ainda um irmão republicano na marinha, que a vai informando de alguns pormenores das reivindicações oposicionistas. Na sua simplicidade e confiança, Lídia conta a Ricardo Reis. Infelizmente, a relação entre ambos é muito baseada no contacto físico e as diferenças sociais impedem que  procurem um  futuro para a relação. No entanto, dá para perceber que Lídia sonha com um final diferente...
Marcenda, por seu lado, pertence aparentemente a um meio social mais próximo de Ricardo Reis, com o qual inicia uma secreta relação  epistolar. Marcenda padece de uma doença misteriosa que a impede de movimentar o braço esquerdo. As suas visitas a Lisboa com o pai são regulares e justificam-se com as consultas a um médico particular. Esta é a justificação oficial para a vinda a Lisboa, diria mesmo o motivo socialmente correcto, pois Marcenda sabe que, para o pai, estas visitas servem fundamentalmente para se encontrar com uma amante...
Curioso ainda como quando Ricardo Reis é chamado pela PIDE para se dirigir à sede na Rua António Maria Cardoso, os funcionários do hotel dão-no como culpado à partida e o receio persiste a partir desse momento. Ao fim de dois meses, Ricardo Reis decide sair do hotel e aluga uma casa, que irá ser constantemente vigiada pelo agente "bafo de cebola"da PIDE. Lídia visita-o nos dias de folga e mais tarde descobre que está grávida. Ricardo Reis fica em pânico com esta nova situação, mas não chegará a assumir o papel de pai pois estava já no ano da sua morte.
Esta é a minha segunda leitura de Saramago, comecei por ler o "Memorial do Convento" há oito anos para uma comunidade de leitores e deixei o livro a meio. Na altura percebi que a tão comentada dificuldade de leitura não era assim tão restritiva para compreender a história. Pelo contrário, estava a gostar mas as circunstâncias foram mais fortes e tive de abandonar a leitura. Mais tarde, em 2009 (?) li "A viagem do elefante" do qual gostei apenas da dedicatória de Saramago a Pilar del Rio... Mas como eu tinha oferecido o livro, tive de o ler pois a pessoa, que recebeu o livro, emprestou-mo para eu o ler também... Não podia desistir de um livro que eu própria tinha comprado para oferecer! À minha espera já tenho "Ensaio sobre a cegueira", sugerido por essa mesma pessoa e com boas recomendações, para poder retomar a leitura do nosso Nobel.

Book Review - The Great Gatsby


Imagem retirada de:


F. Scott Fitzgerald, O grande Gatsby. Lisboa, Relógio d´Água, 177 p.

Aqui está um livro da minha estante! Um clássico da literatura dos anos 20, a década mais interessante do século XX na minha opinião. Apesar da expectativa, este livro deixou-me com uma sensação estranha de tristeza e desilusão. Confesso que não tinha lido rigorosamente nada que me preparasse para a leitura deste livro. Consequentemente senti bem o choque de saber que: O grande Gatsby morre... O quê?! Não!? A verdade é que li o livro com demasiada avidez, fiquei triste com a história de Gatsby e a sua ilusão de reconquistar Daisy. 
A história é-nos contada por Nick Carraway, um jovem que ambiciona fazer carreira em Nova York. Quando Nick vai viver para Long Island, tem como vizinho o misterioso Gatsby, um magnata conhecido pela grandiosas festas na sua mansão luxuosa. Em Long Island, Nick convive com Thom, e respectiva esposa Daisy e ainda Jordan Baker, amiga do casal e por quem se vai envolver sentimentalmente. Nesta fase ainda falta a Nick descobrir o que se esconde nas vidas adornadas de luxo do meio social retratado.
Quando Gatsby finalmente reencontra Daisy, o seu primeiro amor, renasce a esperança de a reconquistar. Aliás, este teria sido o motivo para toda a sua ascensão social. Agora que era visível a todos que enriquecera, Gatsby já estaria em condições para oferecer a Daisy a vida que esta estava habituada a ter. Daisy já tinha percebido que o seu casamento com Thom não fazia sentido face às sucessivas traições do marido. Com Gatsby de novo na sua vida, Daisy poderia escolher um novo rumo. No entanto, Daisy  vai demonstrar que não merece o amor de Gatsby e que as convenções sociais/cobardia vão vencer mais uma vez. Nick Carraway vai criando uma maior empatia com Gatsby, acompanhando-o no rápido desenrolar de acontecimentos que inevitavelmente irão conduzir a um desfecho trágico da história.
Thom e Daisy fogem convenientemente para a Europa após Myrtle, a amante de Thom, ser atropelada por Daisy no momento em que saira à rua convencida de que era o amante Thom a conduzir o carro amarelo. Myrtle era casada com o mecânico local e não aceitava a sua vida como ela era. O caso que teve com Thom sera já consequência da sua vontade de ter outra vida, daí ter saído à rua para travar o carro, pensando que encontraria Thom ao volante com a esposa ao lado. Pobre Myrtle, também iludida mas também cruel com o próprio marido.
Gatsby assumiria a responsabilidade da condução do veículo, procurando proteger Daisy da culpa pelo atropelamento e fuga. No entanto, Daisy abandona-o e o marido de Myrtle vinga-se da morte da mulher, assassinando erradamente Gatsby. Nick fica consternado perante a morte de Gatsby, inocente de culpa, e assiste ao funeral do amigo, abandonado por todos. Como não ficar triste com esta história? A desilusão ao virar as últimas páginas nada teve a ver com a escrita deste autor mas sim por  esta história demonstrar tão bem a perda de ilusões e de ideais nesta sociedade com valores tão efémeros.

Book Review - A Confissão de Lúcio


Imagem retirada de:

Mário de Sá-Carneiro, A confissão de Lúcio. Mem Martins, Europa-América, D.L.1994, 117 p.

Aqui está um escritor português que me impressiona pelo fim trágico numa idade tão jovem... Até agora o meu conhecimento deste escritor resumia-se à leitura de alguns poemas na escola. 
Com a leitura deste livro conhecemos um triângulo amoroso entre as personagens Lúcio, Marta e Ricardo. Lúcio é um poeta que parte para Paris, onde conhece outros artistas e escritores portugueses. O amigo mais marcante vai ser Ricardo, com quem estabelece uma amizade assente na partilha de valores e perspectivas sobre a Arte. Mais tarde, Ricardo regressa a Portugal depois de se casar com a misteriosa Marta. Quando Lúcio volta a Lisboa e a frequentar a casa de Ricardo, inicia uma relação com Marta. A descrição deste amor inesperado foi muito surpreendente para mim, muito avant-garde...
Marta acabou por se desinteressar de Lúcio e envolve-se com outro "amigo" de Ricardo. Lúcio parte de novo para Paris. Quando regressa, Lúcio reencontra Ricardo e os dois descobrem quem é o novo amante de Marta. Mais tarde, Ricardo dirige-se a casa onde já estava Marta. À frente da mulher e de Lúcio, Ricardo suicida-se. As provas incriminam Lúcio, que "aceita" ser acusado de um crime que não cometera. Na prisão, Lúcio relata esta confissão e esse tempo de reclusão - 10 anos! - é visto por ele como um afastamento do mundo e de uma vida que não escolhera. Um livro triste e belo, ao mesmo tempo.

Book Review - A Lua de Joana


Esta imagem retirada de:

Maria Teresa Maia Gonzalez, A lua de Joana. Lisboa, Verbo, 198 p.

Conheci tarde este livro e imaginei-o como um clássico para adolescentes. Apesar disso, decidi ler pois quando há qualidade, não há idade. Gostei da história, inicialmente ainda achei a personalidade da Joana muito expressiva e vincada para a idade. No entanto, a transformação desta personagem ao longo da história vai ser surpreendente.  O fim trágico levou-me a  reflectir sobre vários problemas e vulnerabilidades dos jovens. Neste caso particular, o livro trata da toxicodependência. Nos anos 90 esta temática era muito abordada nas escolas. Hoje em dia não sei como é que esta questão é tratada. Entre outros problemas que persistem hoje em dia, salienta-se a falta de tempo dos pais para estar com os filhos. Esta dificuldade é insistentemente abordada pela Joana, que sentia gravemente a ausência da amiga que morrera de overdose. A solidão vai minar a confiança e alegria de viver de Joana. Uma história bem contada (com um final triste) que faz reflectir muito sobre a fragilidade da vida.

p. 31 "E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas, como por exemplo, para tapar buracos que aparecem quando o mar das palavras se transforma em deserto."


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Book Review - A Cosmética do inimigo


Imagem retirada de:

Amélie Nothomb, A cósmética do inimigo. Lisboa, Bizâncio, 2002, 99 p.

   Se gostei de Temor e tremor, este livro A cosmética do inimigo  conseguiu surpreender-me completamente. Esta história desenrola-se num aeroporto onde Jerome Angust aguarda um vôo que se encontra atrasado devido a problemas técnicos. Durante essa espera maçadora, Jerome vê-se a ser importunado por um homem que, sem qualquer embaraço, tenta conversar com ele. Após várias tentativas para se livrar da conversa mas sem sucesso, Jerome Angust inicia um diálogo no mínimo irónico, cáustico e, por isso, completamente hilariante! No entanto, quando essa personagem começa a revelar demasiado, contando pormenores do passado, em particular da mulher falecida de Jerome Angust, verificamos que este começa a perder argumentação no diálogo. Textor, o desconhecido, revela as condições da morte de Isabelle e, embora conheça todos os pormenores do crime, Textor acusa Jerome como o verdadeiro culpado. Jerome defende-se e Textor propõe que, para fundamentar essa inocência, Jerome terá que o matar. Só assim se libertaria do verdadeiro assassino: a culpa de não saber quem fez o quê. 
   Como nota final, lemos que, naquele dia, um indivíduo se suicidou, batendo com a cabeça numa parede do aeroporto perante a estupefacção dos restantes passageiros. Bem! O que aparentava ser um diálogo, revelou-se um monólogo. Consciência de um indivíduo que carregava a culpa dentro dele. Simplesmente surpreendente. O título adequa-se na perfeição a esta história.