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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016


Leitura e Escrita

Iniciei este blogue em 2011. Sempre gostei de ler, numa maior ou menor regularidade consoante o bem-estar mental que o dia-a-dia permite, e para escrever tinha o meu moleskine que me acompanhava há uma década num exercício de escrita muito libertador, sem qualquer intenção de estar exposto. Esta forma de escrita num blogue, que nada tem de novo, alia imagem e fotografia, o que a torna muito apelativa. De certa maneira, voltei a dar atenção a este espaço, quase só meu, pois considero que ler é importante, mas essa experiência quando é acompanhada pela escrita singela de umas poucas palavras, torna os livros ainda mais presentes na nossa vida e memória. É uma homenagem ao livro e ao autor que sinto que presto, com um retorno ainda maior para mim enquanto leitora!

Book Review - Memorial de Maria Moura






Rachel de Queiroz, Memorial de Maria Moura. 
Lisboa, Livros do Brasil, 1994, 482 p. 


[Primeira leitura iniciada e concluída em 2016, através do empréstimo de um leitor.]

A leitura da obra de Rachel de Queiroz, Memorial de Maria Moura permitiu conhecer uma personagem feminina muito interessante. Maria Moura é uma jovem mulher que se encontra dividida entre dois mundos: um mundo tradicional, passivo, frágil, que ela conhecera na meninice e que se personifica no papel da própria mãe, e em oposição um mundo novo que Maria Moura vai construir para si e para o qual terá que assumir características masculinas, que lhe traz à memória muitos ensinamentos do pai. As ditas memórias de Maria Moura começam a ser tecidas quando esta personagem decide tomar o seu próprio destino nas mãos, o que nesse mundo implicava passar a fronteira do que era considerado legal, ainda que um pouco incipiente, para viver numa espécie de marginalidade que a imensidão do território do Brasil do século XIX permitia. Daí em diante, Maria Moura empreende uma verdadeira obra de construção da sua vida e de uma casa fortaleza, que irá proteger muitos outros que também se encontram numa situação de fuga. Este livro intitula-se como um memorial, e de facto o passado tem aqui um papel muito persecutório. Sobre isto podemos ler numa das passagens do Beato Romano esta conclusão:

"Não, o homem feliz não é o que não tem camisa, como o da história que Padre Barnabé nos contava, no seminário. O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças." p.188

 Para além da história de Maria Moura, encontramos outras vidas simples, que me emocionaram, como as dos que viviam em situação de escravatura com todo o sofrimento que implicava, em especial a separação de pais e filhos. Após ultrapassar as vicissitudes iniciais, Maria Moura irá enfrentar uma grande luta interior que vai desenterrar todo aquele mundo do passado. Percebe-se como a vida esconde várias tipos de lutas e, neste aspecto, a personagem revela fragilidades que poderão fazer esmorecer o entusiasmo pela história ou, pelo contrário, nos levarão a reflectir sobre as contradições próprias do ser humano. Gostei muito da escrita de Rachel de Queiroz e quero conhecer melhor a obra desta escritora, que chegou a assinar com o pseudónimo de Rita de Queluz!
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Leitura para Fim de Semana 




"Tinha muito com quem se brigar nesse mundo afora - porque eu já estava convencida de que, nesta vida, quem não briga pelo que quer, se acaba." p. 121


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016





No dia em que se evoca o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, aqui fica o programa das actividades comemorativas em Gouveia: 

Para mim, este autor está na prateleira de autores portugueses que me acompanha desde os 16 anos, mas que eu adiei a sua leitura por achar que era nova demais e não iria compreender. (Nesses anos duvida-se de tudo, até das capacidades de leitura...) Vinte anos depois, ainda continua por ler. Este ano tenho que enfrentar essa estante sem ideias pré-concebidas! 




O Sonho

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que vamos. Lisboa, Portugália Editora, 1953, 42 p.
sábado, 8 de fevereiro de 2014

Book Review - A máquina de fazer espanhóis



Imagem retirada de: www.joaninhaoulibelinha.blogspot.pt

valter hugo mãe, A máquina de fazer espanhóis. Carnaxide, Objectiva, 2010, 287 p.

Requisitado na Biblioteca João Soares


Numa altura em que VHM promove o seu mais recente livro "A desumanização", fiz a minha primeira leitura deste autor. É um livro que aborda um tema complexo pois fala-nos do sentimento de perda, que vem com o envelhecimento e a morte. Aborda ainda a amizade e o amor numa altura em que a ausência física é mais acentuada. Aos 84 anos, o sr. Silva perde a esposa, Laura, e a família decide colocá-lo num lar. A história desenrola-se a partir do encontro que o sr. Silva irá fazer com os outros utentes do lar, os que já lá viviam e outros que chegam. Destaca-se um grupo de amigos e conhecidos com histórias de vida impressionantes, entre os quais o sr. Pereira, o sr. Esteves (sem metafísica, inspiração de um poema de Fernado Pessoa) e Anísio Franco. Ora se o Esteves "conheceu" o poeta, eu conheci o verdadeiro A.F., conservador do MNAA! Que surpresa curiosa neste livro!
Gostei de ler este livro e de descobrir o significado do título! Destaco a entrevista que este autor deu para o Jornal de Leiria, quando por cá passou em Dezembro!

"A utilidade está na comunidade..."

"nestes modos, sem pensar demasiado, para que o futuro lhe parecesse possível, joão esteves entrou mais uma vez na tabacaria alves e comprou o jornal a ordens do tio. entrou na tabacaria de sorriso educado, cumprimentou o senhor fernando pessoa que ali estava de breve conversa com o dono do estabelecimento e depois cumprimentou o próprio dono do estabelecimento e pediu o jornal de sempre, com a iluminação de sempre, que era sobretudo uma beleza jovial que adivinha dos seus traços privilegiados até dignos de um aristocrata qualquer. a genética, pensaria mais tarde joão esteves, tem destas coisas curiosas, põe-nos com beleza de nobre a passar as fomes dos miseráveis.[...] e joão esteves saiu da tabacaria sem mais nada, inconsciente de que plantara no terreno fértil da criatividade de fernando pessoa um poema eterno." p.82

"um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um trofeu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido." p. 91

" sabe, acharmos que salazar é que arranjaria isto, que ele é que punha esta juventude toda na ordem, é natural, porque temos medo destes novos tempos, não são os nossos tempos, e precisamos de nos defendermos. quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não tínhamos dores nas costas nem reumatismo. é uma saudade de nós próprios, e não exactamente do regime e menos ainda de salazar."

"deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe e não vai existir. e até inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. é tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. [...]os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros." p. 225 

Book Review - Viagem ao Fim da Noite



Imagem retirada de: www.skoob.com.br

Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite. Lisboa, Ulisseia, 1973, 474 p.
Requisitado na BMALV 

O ano de 2014 iniciou-se com esta leitura. Numa ida rápida à biblioteca municipal apenas para devolver uns quantos livros juvenis, a questão da técnica "Não quer levar um livro?" ficou a pairar no ar e eu não consegui dizer não... Requisitei este livro, embora não conhecesse nada sobre a história ou o seu autor, tinha apenas uma vaga ideia de já ter lido algures este título e sabia ser um clássico.

A leitura iniciou-se de forma interessante, mas a temática da I Guerra Mundial fez logo prevalecer um tom angustiante e bem revelador do absurdo do conflito. A história de Ferdinand Bardamu vai-se desenrolando por vezes de forma caótica. A passagem por África acentuou uma quebra no meu entusiasmo, mas a ida para os Estados Unidos, a aparição de Molly e o regresso a França reinstalaram mais dinamismo à história. Por vezes, em certas passagens a dor e a escuridão são muito fortes e aí percebemos bem o trauma que a vida sujeita a certas pessoas. A consciência de permanecer nesse estado e as reflexões daí resultantes fazem deste livro uma obra diferente. Não é uma leitura fácil ou agradável. Não podia ser, mas apesar disso aconselho a leitura deste livro. 

Destaco uma entrevista de António Lobo Antunes, no blogue Ciberescritas de Isabel Coutinho, na qual este escritor destaca a forma como esta obra o marcou na sua adolescência e que o fez escrever ao próprio autor. 

Tomo a liberdade de disponibilizar aqui o link para essa entrevista no blogue Ciberescritas: 
http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2010/03/23/quando-lobo-antunes-escreveu-a-celine/

Sobre Molly:

" - Não voltes à Ford! - acabava por me desencorajar Molly. - Procura antes um emprego num escritório... Como tradutor, por exemplo, é o teu género...Os livros agradam-te...Aconselhava-me deste modo, muito carinhosamente, queria que eu fosse feliz. Era a primeira vez que um ser humano se interessava por mim, pelo meu egoísmo, de dentro se ouso dizê-lo, se punha no meu lugar, não se limitando apenas a julgar-me do seu, como todos os outros. 
Ah! se eu tivesse encontrado mais cedo esta Molly, ainda a tempo de seguir outro caminho em vez deste! Antes de desbaratar o meu entusiasmo com a galdéria da Musyne e com o monte de estrume que era Lola! Demasiado tarde, agora, para refazer a minha juventude. Não me parecia já possível! Tornamo-nos rapidamente velhos, de forma irremediável. E apercebemo-nos disso quando nos apanhamos a amar a própria desgraça, mesmo sem o desejarmos. É a natureza a mostrar-nos mais forte do que nós, aí está. Treina-nos num determinado género e depois já não podemos sair dele. Eu, por exemplo, partira na direcção da intranquilidade. Vamos pouco a pouco tomando o nosso papel e o nosso destino a sério, sem que dêmos conta disso, e depois quando caímos em nós é demasiado tarde para mudarmos. Encontramo-nos rodeados de inquietação, e claro que para sempre." p.216/217

"Passaram-se já bastantes anos depois desta partida. Anos e anos...Escrevo amiúde para Detroit, e depois ainda para todas as direcções de que me lembrava e onde fosse possível alguém conhecê-la, saber-lhe do paradeiro. Nunca recebi resposta. 
A casa encontra-se neste momento fechada, foi tudo quanto consegui apurar. Boa e admirável Molly, caso ela me possa ainda ler em qualquer lugar por mim ignorado, desejo que saiba nada haver mudado na minha afeição por ela, que a amo ainda e sempre a meu modo, que pode vir até mim quando quiser e partilhar do meu pão e do meu incerto destino. Se não for bela, paciência! Cá nos arranjaremos! Conservei tanta da sua beleza dentro de mim, tão indestrutível e tão reconfortante, que bem chega para nós os dois, pelo menos durante vinte anos, o tempo de acabarmos." p.223

Sobre o Tempo, a Vida e a Juventude:

"A água vinha marulhar junto dos percadores e ali me sentei a vê-los pescar. Eu não tinha pressa nenhuma, lá isso não, tal como eles. Chegara àquele momento, talvez àquela idade em que sabemos muito bem o que perdemos, a cada hora que passa, mas não adquirimos ainda em sabedoria, a força precisa paea estacar subitamente na estrada do tempo, e se por acaso nos tivéssemos detido não saberíamos o que mais fazer sem a paixão de avançar que admiramos e nos possui desde sempre, desde a juventude. Já não nos sentimos tão orgulhosos dela, da juventude, mas ainda não ousamos confessá-lo em público, confessar que a juventude não é talvez senão isso, entusiasmo em envelhecer.
Descobrimos em todo um passado ridículo tanto ridículo, tanta credulidade, tanta aldrabice, que desejaríamos por certo acabar de vez com a mocidade, esperar que ela se desprenda, nos ultrapasse, vê-la ir-se, afastar-se, olhá-la em toda a sua futilidade, dar-lhe a mão no seu vazio, vê-la passar de novo à nossa frente e depois partirmos nós, ficarmos certos de que na verdade ela se foi, a juventude, e tranquilamente, pelo nosso próprio caminho, passarmos vagarosamente para o lado de lá do Tempo, e observarmos então a verdade das pessoas e das coisas." p.271

Sobre o Amor e outras ilusões:

" No estado em que se encontrava [Tania], nem pensar em deixá-la. Insistia em armar ao trágico e mais ainda, em mostrar-se em pleno transe. Que momentos aqueles! Os amores contrariados pela miséria e pelas grandes distâncias são como os amores de marinheiro, não há duas opiniões, irrefutáveis e de êxito assegurado. De resto, sem ocasiões para encontros frequentes não é possível haver insultos, o que já é alguma coisa ganha. E como a vida não passa de um delírio a rebentar de mentiras, quanto mais longe estivermos e quanto mais o rechearmos de mentiras, mais contente nos achamos, é natural e vulgar. A verdade não é comestível.
Neste momento, por exemplo, é fácil que nos contem coisas a respeito de Jesus Cristo. Mas iria ele à retrete perante toda a gente, Jesus Cristo? Tenho cá na ideia que a coisa não teria resistido muito tempo se ele tivesse feito caca em público. Tudo se resume a um mínimo de presença, sobretudo quando se trata de amor." p.344/345

Este livro cumpre a meta que tracei para este ano de 2014 de ler um clássico de Literatura Estrangeira!